Discipulado: programa ou processo?
Por que cursos, cultos e conferências não são suficientes para nos tornar parecidos com Jesus.
Em geral, nossas igrejas abordam o discipulado como se fosse um programa.
Isso significa que presumimos que as pessoas serão discipuladas e crescerão em maturidade espiritual a partir do seu engajamento com atividades oferecidas pela igreja. Então explicamos nossa “estratégia” de discipulado mencionando a escola bíblica, os pequenos grupos, as células ou aquela série de cursos e eventos ao longo do ano.
Todas essas coisas são boas. São recursos válidos e, muitas vezes, necessários. No entanto, a formação espiritual é, em sua essência, um processo, e não um programa.
Enquanto um programa pode fazer parte de um processo, o processo em si é mais amplo e abrangente do que o programa. É uma jornada. E o processo de ser conformado à imagem de Jesus é longo, lento e envolve uma complexidade de fatores que nenhum programa isoladamente pode produzir.
A pergunta errada
Se queremos, de fato, ver as pessoas crescendo em maturidade espiritual e alcançando uma verdadeira semelhança com Jesus, precisamos mudar a pergunta que estamos fazendo.
A pergunta não deve ser: “Quais programas utilizaremos para formar discípulos?”
A pergunta correta é: “Qual é o nosso paradigma de formação espiritual?”
Em outras palavras: De que maneira as pessoas realmente mudam? Como é que um ser humano tem o seu caráter efetivamente transformado de forma a refletir o caráter de Cristo?
Os dois polos incompletos
Hoje, vemos muitas igrejas divididas entre dois polos principais quando o assunto é discipulado e formação. Cada um tem grandes virtudes, mas possivelmente também algumas lacunas importantes.
1. O Paradigma do Ensino (Histórico/Tradicional)
Este modelo é mais frequentemente adotado nas denominações históricas e tradicionais. Aqui a ideia é que as pessoas mudam exclusivamente a partir do ensino bíblico, por meio de um processo essencialmente cognitivo e racional. A agenda da igreja é composta de sermões expositivos, cursos de teologia e escolas bíblicas. Indiscutivelmente, o ensino das Escrituras é essencial para a formação cristã. Ao mesmo tempo, todos nós conhecemos pessoas que conhecem muito bem a Bíblia e as doutrinas cristãs, mas que não crescem na semelhança com Jesus em relação a vários aspectos do seu caráter.
2. O Paradigma da Experiência (Pentecostal/Carismático)
Na outra ponta do espectro, vemos muitas igrejas que presumem que toda a transformação que uma pessoa precisa experimentar irá acontecer em encontros extraordinários com o poder de Deus. Vemos essa premissa com mais frequência em denominações pentecostais e carismáticas. A ideia então é promover cultos, conferências, vigílias e reuniões de oração, a fim de proporcionar espaços e ambientes para que o encontro aconteça. Da mesma forma que no paradigma anterior, experiências com Deus são essenciais para a nossa formação. E igualmente não é difícil constatar que esse modelo também contém lacunas, que parecem deixar a formação espiritual ainda incompleta quando o alvo é refletir todo o caráter de Cristo no dia a dia.
Parece-nos que, embora haja muito acerto nos dois lados, há algo faltando.
O Paradigma de Jesus
Se olharmos para o ministério de Jesus — seu exemplo prático com seus próprios seguidores — Ele nos oferece um paradigma de formação espiritual que é, acima de tudo, intencional.
Não se trata apenas de informar a mente, nem apenas de emocionar o coração. Trata-se de reorganizar a vida inteira em torno de três pilares simples e profundos:
Estar com Jesus
Tornar-se como Ele
Fazer o que Ele fez
Uma vez que essas se tornam as novas prioridades na vida do discípulo, ele então se submete a um processo que envolve alguns elementos, bem sintetizados por autores como James Bryan Smith e John Mark Comer1, e que pode ser ilustrado pelo seguinte diagrama:
Em textos futuros, exploraremos com mais detalhes cada elemento desse paradigma: ensino, práticas e vida em comunidade, tudo isso na presença e pelo poder do Espírito Santo, acontecendo ao longo do tempo e por meio do sofrimento. Todos eles cumprem um papel fundamental em nossa formação.
Quando integramos todos esses elementos em nossos ritmos de vida comunitária, podemos experimentar, de maneira mais profunda e efetiva, uma transformação significativa.
O nosso objetivo final não é encher eventos nem emitir certificados de conclusão de cursos bíblicos. O alvo é refletir o amor e a beleza de Cristo no mundo à nossa volta. E isso não acontece da noite para o dia; acontece devagar, enquanto caminhamos com Ele, numa gradativa reorganização da vida que abra espaço para Deus agir em nós.
James Bryan Smith apresenta uma versão desse paradigma em “O maravilhoso e bom Deus”, e John Mark Comer baseia-se nele para chegar a essa proposta em “Praticando o Caminho”.



Quero fazer parte, me chama Vanessa? É a minha cara. 🙏🏻📖🕊